Desperdício nacional: fortificação com ferro de farinhas de trigo e de milho

Desperdício nacional: fortificação com ferro de farinhas de trigo e de milho

Por Em Aplicação de produtos, Eventos Em 13 de fevereiro de 2015


Há dez anos, entrou em vigor a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n°344, de 2002, que tornou obrigatória a fortificação de farinhas de trigo e de milho, no Brasil, com ferro biodisponível. Biodisponibilidade é a fração de um composto ingerida, absorvida e transportada para o local metabólico de ação no organismo. Logo, todos os compostos de ferro são considerados biodisponíveis, embora a fração absorvida de alguns seja praticamente nula, como é o caso dos mais populares e financeiramente acessíveis.

A obrigatoriedade da fortificação de farinhas de trigo e de milho surgiu a partir da constatação da alta prevalência de anemia ferropriva – anemia causada por deficiência de ferro – no País. Esse tipo de anemia atinge, principalmente, gestantes e crianças pré-escolares (com idade inferior a cinco anos). Como o público-alvo desses produtos não abrange os pré-escolares, obviamente o programa não faria efeito sobre eles.

Além da população, a Economia era também prejudicada por essa condição da saúde pública: gastos exorbitantes com medicamentos, tratamentos e ausências no trabalho subiam gradativamente.

Contudo, passados dez anos de programa, a prevalência de anemia no Brasil continua alta. Embora não haja um levantamento oficial, pesquisas em diferentes regiões apontam os resultados fracassados da fortificação: cerca de metade da população do Brasil ainda sofre de anemia ferropriva.

Não se obteve o resultado esperado, e isso deve-se, principalmente, ao fato de a maioria das empresas fabricantes de farinhas de trigo e de milho utilizar compostos de ferro de baixa biodisponibilidade (como ferro reduzido, por exemplo) na fortificação desses alimentos. Compostos como esses não são absorvidos em quantidades suficientes para apresentar efeito no organismo.

Em entrevista concedida ao blog +Bio, o Dr. José João Name, 62, diretor da empresa Kilyos Minerals & Nutrition (representante nacional da norte-americana de minerais quelatos Albion Human Nutrition), afirmou que “todos os elementos que agregam valor real ao produto são bem-vindos pelo consumidor. A palavra chave aqui é ‘real’, pois, frequentemente, os produtos fortificados não têm qualquer eficácia e destinam-se apenas a uma diferenciação promocional, mas não efetiva para o consumidor. Na saúde pública ocorre o mesmo, e isso é evidenciado pelo fracasso do programa de fortificação de farinha no Brasil, que nada resultou após 10 anos de programa. Isso se deve à permissividade da lei em relação a produtos de baixa biodisponibilidade.”

De acordo com a RDC 344/2002, o valor adequado de ferro na fortificação é de, pelo menos, 4,2 mg a cada 100g de farinha. Isso equivale a 30% da IDR (Ingestão Diária Recomendada) desse mineral, e o produto fortificado pode ser considerado “rico em ferro”.

Baseando-se em um estudo realizado em Campinas (três milhões de habitantes, a 100 km de São Paulo) por Thaís Rezende Boen et al., da Pontifícia Universidade Católica, em que foram analisadas três diferentes marcas de farinha (cinco amostras cada), Dr. Name avaliou outra preocupante questão em relação ao programa de fortificação: “Os pesquisadores demonstraram a ausência de compromisso das empresas para obter um processo homogêneo e contínuo de adição do composto de ferro para a farinha. Em seguida, muitos erros e diferenças nos níveis de fortificação podem ser vistos. Podemos observar, em um estudo, uma variação de 4,1 a 8,4 (mg / 100) e, se considerarmos o ferro naturalmente presente na farinha de trigo (1mg/ 100 g), temos os níveis de fortificação que variam de 3,1 a 7,4.”

Essa “ausência de compromisso” pode ser observada, também, em um estudo realizado por Carmen Silvia Kira et al., do Instituto Adolfo Lutz (SP), o qual demonstrou que, dentre 37 amostras de farinhas domésticas fortificadas, o nível de ferro foi insatisfatório em cerca de 20% delas, pois estavam abaixo da tolerância de 3,4 (20% de 4,2 mg/100g).

Assim, o programa de fortificação de farinha do Brasil é um desperdício nacional, além de ser falho tanto para os fabricantes quanto para os consumidores.

Para os fabricantes, pois estes têm gastos desnecessários com compostos que apresentam resultado e eficácia “pobres”, já que a legislação permite a utilização de ferro de baixa biodisponibilidade, geralmente mais acessível financeiramente. Por isso os fabricantes optam pelo que, a princípio, parece mais barato, mas que, na verdade, custa muito mais caro, uma vez que não apresenta resultado algum. Afinal, questiona-se: quanto se gastou nestes últimos dez anos com compostos de ferro e tecnologias para as fortificações, para se chegar a um resultado zero?

E para os consumidores, porque, a partir do momento em que leem nos rótulos das farinhas a expressão “rico em ferro”, são apresentados a soluções ilusórias para um importante problema de saúde mundial, a anemia.

A visão da Indústria sobre o Programa de Fortificação de Farinhas

Entre Dezembro de 2004 e Março de 2005, em uma entrevista realizada por Willian César Latorre, diretor científico da empresa Granotec do Brasil, foram expostas as opiniões de dez profissionais da indústria afetada pela RDC 344, que trata do programa de fortificação obrigatória de farinhas no Brasil. A entrevista foi concedida por homens e mulheres com idades entre 30 e 55 anos e com exercício de diferentes profissões, como engenheiros de alimentos, de agricultura, economistas e químicos.

Em suma, os entrevistados foram a favor do programa, porém não concordaram com a forma autoritária como a RDC 344/2002 foi imposta. Eles também não acreditaram na eficácia do programa sobre a população de baixa renda, a mais afetada pela anemia, devido ao alto valor dos produtos derivados do trigo.

Além disso, todos eles foram unânimes em relação à ocorrência de dificuldades tecnológicas surgidas a partir da vigência da Resolução.

Os entrevistados afirmaram, ainda, que solicitaram ao governo a realização de propagandas para conscientizar os consumidores sobre o assunto, no entanto o pedido foi negado.

LACC3 e Dr. Jonathan Bortz

O evento latino-americano de cereais e alimentos LACC3 (Latin American Cereal Conference), que ocorrerá em Curitiba/PR entre os dias 29 de Março e 01 de Abril, terá como um de seus principais palestrantes o Dr. Jonathan Bortz, 58, diretor de desenvolvimento científico e comercial da empresa Albion Human Nutrition.

Em 1995, Dr. Bortz fundou o Bortz Diabetes Control Center (Centro de Controle de Diabetes). Trabalhou como especialista em diabetes durante 15 anos e atualmente, utiliza seu conhecimento e experiência para encontrar maneiras de aumentar a biodisponibilidade e tolerabilidade de minerais e vitaminas. No evento LACC3, abordará o assunto da fortificação de farinhas com ferro bisglicinato quelato.

O título da palestra a ser ministrada por Dr. Bortz é Fortificação de farinhas com bisglicinato ferroso: efetividade e custo-benefício. Nela apontará as vantagens da fortificação com esse composto, unindo informações que comprovem sua viabilidade como principal – se não único – meio de fortificação de farinhas de trigo e de milho.

Com efeito, estudos comparativos demonstram que o ferro bisglicinato quelato é o mais adequado para fortificação de farinhas por sua alta biodisponibilidade e tolerância, sendo seu emprego a forma a amenizar a prevalência de anemia ferropriva no País. Esse composto garante resultados e, portanto, evita o desperdício de ferro não utilizado.

Sobretudo, se o interesse dos órgãos nacionais é combater realmente esse problema, faz-se necessário alterar a resolução dos compostos permitidos para a fortificação desses alimentos a fim de assegurar sua utilidade e, principalmente, eficácia.

Referências

ANVISA. Resolução RDC n.344, de 13 de Dezembro de 2002. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/f851a500474580668c83dc3fbc4c6735/RDC_344_2002.pdf?MOD=AJPERES> Acesso em 02 de Fevereiro de 2015.

BLOG +BIO. Bate papo com Dr. José Name. Disponível em: <https://maisbio.wordpress.com/2014/11/20/alimentos-fortificados-com-minerais-quelatos-bate-papo-com-dr-jose-name/> Acesso em 02 de Fevereiro de 2015.

BOEN, Thaís Rezende et al. Avaliação do teor de ferro e zinco e composição centesimal de farinhas de trigo e milho enriquecidas. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-93322007000400012&script=sci_arttext> Acesso em 11 de Fevereiro de 2015.

KIRA, Carmen Silvia et. al. Avaliação dos teores de ferro em farinhas de trigo fortificadas, São Paulo, Brasil. Disponível em: <http://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-461274> Acesso em 09 de Fevereiro de 2015.

LACC3. Latin American Cereal Conference Brazil 2015 – Disponível em: <http://lacc3brazil.com/home/> Acesso em 02 de Fevereiro de 2015.

LATORRE, Willian César et al. A visão da indústria brasileira moageira do trigo sobre a legislação que obriga a fortificação das farinhas com ferro / Brazilian milling industry views on law requiring iron fortification of wheat flour. Disponível em: <http://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-502284> Acesso em 09 de Fevereiro de 2015.

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Sobre o Autor

Kilyos Minerals & Nutrition

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